Quando
eu era criança, certo dia estava passeando com minha mãe. Estávamos dentro do
carro e chovia forte. Eu era muito pequena mesmo. Minha memória não é muito
boa, mas esse dia me marcou. Minha mãe estava perdida, não lembrava mais em que
rua entrar. As ruas estavam cheias de água. Eu conseguia ficar em pé no banco
de trás, bem no meio entre os dois bancos da frente, sabe? E então minha mãe
pensou alto “Onde eu entro mesmo? Será que é aqui à direita?” E eu respondi com
certeza “Ora mamãe, é só esperar a setinha aparecer!”. Você deve estar rindo
nesse momento, igual a minha mãe há não sei quantos anos. Mas eu não. Como deve
mesmo ser difícil ser adulto! Eu tenho que decorar as ruas? Pagar as contas?
Namorar? É sério, quando eu era criança eu achava que não ia conseguir namorar.
Como é que eu ia sair do meu mundo, com as minhas bonecas e ter que bater papo
com um menino? Ou melhor, um homem! Eu, definitivamente, não queria virar adulta.
E agora, que virei, que consegui namorar e decorar meus caminhos, ainda assim
me deparo com aquela rua cheia de água e a dúvida da esquerda ou direita. “Siga
seu coração”. Você já parou pra pensar no coração? O coração é difícil de
seguir. Tem um monte de válvulas, artérias e veias. Sem contar que ele não para:
é sempre tum ta tum ta. É difícil. Mas, sabe? Não importa quanto tempo você
fique parada. A setinha só vai aparecer quando você apertar. E o máximo que vai
acontecer é você ter que fazer uma manobra e voltar atrás.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
domingo, 10 de março de 2013
Querido,
Como a vida passa assim tão
rápido? Ontem mesmo não era sábado? Não era dia 1? Ontem mesmo não joguei terra
com cuidado em cima da sementinha? Não foi ontem que plantei bananeira, que
brinquei de esconde-esconde, que tomei guaraná e comi pão na vovó? A vida engole
o tempo, é? O tempo não dorme, querido? Diz pra mim quando eu vou terminar
aquele samba que você nem musicou? Quantos minutos ainda vão ser esmagados pelo
trânsito, pelo asfalto, pela carteira assinada e pelo supermercado? Agora que
tenho carimbo, diz pro tempo aceitar aquele tarja preta pra gente poder olhar
pras estrelas sem medo de criar verruga?
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Eu vi você
Querido,
Faz um tempo mesmo, eu quase não lembro. Eu quase não reconheci você. Eu quase confundi sua camisa com a do vizinho. Eu quase disse oi. Faz um certo tempo e o tempo é um bom remédio, nem dói mais. E eu pensei que nunca fosse sair do nunca e então eu me vi assim no quase. E eu quase fui embora, eu quase quis fugir, mas o tempo, ah o tempo faz com que o baticum nunca seja o mesmo. Então, meu bem, que pena, que pena que você já não é mais nem mesmo um quase para sempre. Logo você que eu pensei que nunca, nunca mesmo fosse sair daqui. Então eu te vejo e quase não te reconheço e me dou conta que meu peito nunca, nunca mais vai ter lugar teu. Querido, esse mundo é tão grande pra você quase em mim assim! Por isso eu exijo: quase-se com outro alguém.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Querido,
Há quanto tempo eu não sinto frio. Tenho saudades das suas cócegas e daquela gargalhada que só você rouba. Você devolve? Traz junto o frio na barriga? Sabia que eu perdi seu endereço? Eu me perdi. Não, dessa vez não foi no meio das minhas incertezas. Foi no viver mesmo, sabe? (Como num metrô, querido, em horário de pico) O seguir. Mas aí você foi embora e levou meu sambar. Onde você mora agora? Em que veia desse meu peito? Esquerdo? Não, meu amor, não segue o fluxo. Traz meu frio de volta e teu abraço que aquece a alma. Deixa eu me perder de novo entre as tuas linhas. Querido, faz mais um samba pra mim?
quarta-feira, 9 de março de 2011
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